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Hitler e Mussolini fazendo saudação nazi-fascista, em foto de 1938; para pesquisador do fascismo, o maior perigo atual é 'a democracia que se suicida' - Getty Images |
Não é só no Brasil destes dias
que o termo "fascismo" voltou a permear o debate político. Em países
europeus como Hungria, Polônia, Áustria e Itália, berço do fenômeno, a ascensão
de políticos populistas de extrema direita - com pendores nacionalistas e
xenófobos - tem suscitado calorosas discussões sobre a conveniência ou não de
se usar a palavra.
O historiador Emilio Gentile é
considerado na Itália o maior especialista vivo sobre o assunto. Autor de
inúmeros livros sobre o período fascista, muitos deles adotados nas escolas
italianas, ele afirma que utilizar o termo, como se tornou comum recentemente,
é uma forma de confundir as ideias e não observar um fenômeno que, na verdade,
tem a ver com a crise da democracia.
"A democracia não está em
risco por causa de um fascismo que não existe. Hoje, o perigo é a democracia
que se suicida", disse à BBC News Brasil. "O que há de novo, em todo
o mundo, é um novo poder de direita nacionalista e xenófobo. É o que Orbán
(Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, um dos expoentes desse movimento
na Europa) classificou de política nacionalista democrática iliberal."
De acordo com Gentile, há muitos
movimentos políticos - na Europa e em outros lugares do mundo - que se referem
à experiência fascista e utilizam seus símbolos, mas de uma maneira muito
"idealizada e imaginária".
O fascismo foi criado por Benito
Mussolini - um ex-socialista - há quase cem anos. Originário da palavra latina
"fascio littorio", um conjunto de galhos amarrados a um machado,
símbolo do poder de punição dos magistrados na Roma Antiga, o experimento
nasceu oficialmente em 23 de março de 1919, quando Mussolini fundou em Milão o
grupo "Fasci di Combattimento", que reunia ex-combatentes da Primeira
Guerra Mundial (1914-18).
Com a Itália imersa no caos - à beira de uma guerra civil,
com crise política, econômica e social, num momento em que o poder fugiu do
controle do Estado -, e à sombra da revolução russa de 1917 (temia-se que o
comunismo chegasse também no país), o grupo fundado por Mussolini cresceu
rapidamente.
Ainda em 1919, ocorreram ataques
de brigadas fascistas - que depois se tornariam efetivamente milícias
paramilitares - contra políticos de esquerda, judeus, homossexuais e órgãos da
imprensa. Eles ficariam conhecidos como os "camisas negras".
No final de 1921, nasceu o
Partido Nacional Fascista (PNF), cujo símbolo era exatamente o "fascio
littorio". Menos de um ano depois, Mussolini assume o poder. Ele
fortaleceu sua influência na Itália angariando o apoio de industriais,
empresários e do Vaticano, e tornou-se referência para regimes autoritários
mundo afora - Francisco Franco na Espanha, António Salazar em Portugal e,
sobretudo, Adolf Hitler na Alemanha (que por muito tempo manteve um busto do
Duce italiano em seu escritório) tiveram em Mussolini e no seu regime uma
grande fonte de inspiração.
Regime totalitário baseado num
partido único, a característica fundamental do fascismo foi a militarização da
política, que era tratada como uma experiência de guerra: além do projeto de
expansão imperial, com a supremacia fascista imposta no Estado e na sociedade,
o regime tratava os adversários como inimigos que deveriam ser eliminados. No
mês passado, a Itália lembrou os 80 anos da chamada lei racial, aprovada contra
os judeus e que estava em consonância ao regime nazista de Hitler.
"O fascismo sempre negou a
soberania popular, enquanto o nacionalismo populista de hoje reivindica o
sucesso eleitoral. Esse políticos de agora se dizem representantes do povo,
pois foram eleitos pela maioria. Isso o fascismo nunca fez", comenta
Emilio Gentile.
Raízes fascistas
Para o sociólogo italiano
Domenico de Masi, que conhece o Brasil há muitos anos, se não é possível falar
num fascismo histórico como o implementado na Itália no século passado, não há
dúvidas, por outro lado, de que Jair Bolsonaro (PSL) é um político de
inspiração fascista - o candidato à Presidência disse recentemente num comício
no Acre em "metralhar a petralhada". A eliminação física de adversários
era exatamente uma das características do regime de Mussolini.
"Ele tem inspiração fascista
no que diz respeito à relação do Estado com a economia, entre o poder civil e
militar, política e religião. E com base num conceito de autoritarismo, acha
que pode resolver problemas complexos com receitas fáceis", diz De Masi.
O sociólogo vê com inquietação a
ascensão de governos e políticos com raízes "claramente fascistas".
"Bolsonaro é como Salvini (Matteo Salvini, político de direita e
vice-premiê italiano hoje). Os dois têm uma visão autoritária da sociedade.
Brasil e Itália são sociedades muito distintas, mas vejo os dois muito
parecidos", completou.
Salvini, aliado de Steve Bannon,
ex-estrategista de Donald Trump que já se reuniu com um dos filhos de
Bolsonaro, declarou recentemente no Twitter torcer pela eleição do ex-capitão
no Brasil.
Domenico de Masi ressalta que,
enquanto na Europa o que alimenta esse tipo de discurso é a imigração (e que
tem, na Itália, o apoio das classes média e média-baixa), no Brasil o fenômeno
é estimulado pelo ódio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao Partido
dos Trabalhadores. "No caso brasileiro, o cidadão pobre do Nordeste é mais
inteligente quanto ao perigo de Bolsonaro do que os ricos de São Paulo, que
apoiam o candidato".
Como o colega Emilio Gentile, o
historiador Eugenio di Rienzo, professor de História Contemporânea da
Universidade Sapienza, em Roma, afirma que o fascismo é um regime que nasceu e
morreu no século passado - em 1945, quando Mussolini foi assassinado em Milão.
"Não se pode fazer uma
analogia entre aquele fenômeno e outro. O fascismo não se reproduz mais, é
preciso cuidado com o uso da palavra, pois acaba provocando
desinformação", disse. "Um racista não é sempre um fascista. O
governo de (Recep Tayyip) Erdogan na Turquia é autoritário, mas não
fascista."
Di Rienzo reconhece que há muitos
nostálgicos do fascismo na Itália, assim como do nazismo na Alemanha, mas para
ele o processo atual (na Europa e nos Estados Unidos de Trump) não é uma
"repetição do passado": "Há algumas semelhanças, mas os
processos são muito diferentes. A analogia, muitas vezes, tem o propósito de
propaganda".
Emilio Gentile concorda. "Na
verdade, faz-se propaganda de um fascismo que parece eterno, mas ao menos na
Europa é um fenômeno novo que se relaciona à crise da democracia, ao medo da
globalização e dos movimentos imigratórios que poderiam sufocar a coletividade
nacional. Mexe com a imaginação das pessoas, mas não se trata de um perigo
real."
Gentile lembra que o sucesso de
Bolsonaro no Brasil tem a ver com uma tradição latino-americana da participação
dos militares na política, vistos como atores da "ordem e da
competência", o que não acontece nos países europeus.
Madeleine Albright, ex-secretária
de Estado dos Estados Unidos, país onde chegou nos anos 1940 após sua família
fugir do nazi-fascismo na Europa, publicou recentemente o livro Fascismo: Um
Alerta, em que discute o tema e as formas atuais de transmutação do que ela
chama de "vírus do autoritarismo". "Definir fascismo é difícil.
Primeiro, não acho que fascismo seja uma ideologia. É um método, um
sistema", disse Albright recentemente numa entrevista.
O certo é que o debate sobre o
que é fascismo e em quais situações se deve utilizar o conceito é tão antigo
quanto o próprio regime.
Numa coluna para o jornal inglês
Tribune, em março de 1944, o escritor e jornalista George Orwell escreveu - o
artigo intitulava-se "O que é fascismo?" - que todo aquele que usa
indiscriminadamente a palavra fascismo está agregando a ela um significado
emocional. "Por fascismo, eles estão se referindo, de maneira grosseira, a
algo cruel, inescrupuloso, arrogante, obscurantista."
Autor de livros clássicos sobre o
totalitarismo (como 1984 e A Revolução dos Bichos), Orwell recomendava:
"Tudo que se pode fazer no momento é usar a palavra com certa medida de
circunspeção e não, como usualmente se faz, degradá-la ao nível de um
palavrão".
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