Mostra na Caixa Cultural amplia o movimento, apresentado como parte da construção de uma identidade nacional
RIO - Mais do que projetar artistas da importância de Di Cavalcanti e Victor Brecheret, a Semana de 1922 teve o mérito de organizar o pensamento moderno que, então, já despontava em todo o país. Tal tese embasa a exposição "Modernismos", que será aberta ao público nesta terça-feira, na Caixa Cultural do Rio. O plural do título ajuda a explicar a ideia dos curadores Marcus Lontra e Daniela Name: são vários "Brasis" e, portanto, vários modernismos.— Todo o Brasil tinha desejos de modernização, e se pensava: que país é este? O que acaba ficando de mais significativo do modernismo é a construção de uma identidade nacional — diz Lontra.
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O curador enfatiza, no entanto, que não se trata de diminuir a importância da Semana de 1922, "um marco icônico", mas a proposta, completa ele, é entender que "a construção do modernismo é mais complexa".
A exposição, claro, não deixa de fora obras de Tarsila do Amaral (que, embora não estivesse na Semana de fato, foi fundamental na divulgação do movimento), Anita Malfatti e Di Cavalcanti. Por outro lado, dá espaço a figuras menos icônicas da Semana em si, mas essenciais no projeto modernista como um todo.
Na entrada da Caixa Cultural, o público será recebido pelo que Daniela Name define como "baile dos desejos": ao som de "Pelo telefone", o primeiro samba gravado, pairam galhardetes (bandeirolas) com as imagens de João Cândido (um dos líderes da Revolta da Chibata), de João do Rio (grande cronista do Rio no início do século XX) e do escritor Lima Barreto. A proposta é lembrar nomes que já anunciavam a importância dos negros na construção de uma identidade nacional, mais tarde clamada por Oswald de Andrade nos textos modernistas.
Do baile, chega-se à sala de paisagens, em que artistas como Antônio Parreiras (1860-1937) e Giovanni Castagneto (1851-1900) retratam a beleza do cenário carioca que, pouco depois do início do século XX, começa a se transformar com o projeto de modernização. Na exposição, uma imensa foto mostra a Avenida Central (atual Rio Branco) recém-construída, e vídeos retratam a ocupação do Morro da Favela. Uma obra interativa permitirá ao público entender a derrubada do Morro do Castelo em 1921.
SP, núcleo catalisador
Depois do núcleo carioca, entra-se, enfim, no núcleo da Semana de 1922. O espaço apresenta um dos trabalhos mais importantes trazidos pela exposição, o álbum de desenhos "Fantoches da meia-noite", criado em 1921 por Di Cavalcanti, com edição de Monteiro Lobato. As ilustrações de Di o levaram a São Paulo para uma exposição no mesmo ano. Um ano depois, já próximo de Oswald e Mário de Andrade, está mais grossa a "sopa", como diz Daniela, que culminaria com a realização da Semana de 1922.
— É um período de letras e de ideias, sobretudo. E São Paulo promove a publicação e a reunião de todo esse pensamento. Podemos dizer, sem nenhum tom pejorativo, que São Paulo é a cidade marqueteira do pensamento modernista — avalia ela. — Os sonhos do Rio eram também muito potentes, mas não tinham talvez um catalisador.
É no núcleo paulista da mostra que estão obras dos nomes emblemáticos da Semana, como Brecheret e Segall. Além de obras de arte, Daniela e Lontra conseguiram reunir as principais publicações do período, como revistas feitas por Carlos Drummond de Andrade e Sérgio Buarque de Hollanda. Há ainda a exibição de filmes como "Macunaíma" (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, e da cópia restaurada, em película, de "Limite" (1931), de Mario Peixoto.

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